22 de julho de 2010
Sob pressão da desaceleração da economia, BC reduz ritmo de altas do juro básico
Pressionado pela divulgação de indicadores que apontam a desaceleração da economia brasileira, o Banco Central decidiu reduzir o ritmo de aumento da taxa básica de juros. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou os juros de 10,25% para 10,75% ao ano. A intensidade do aumento foi menor que a realizada nas duas reuniões anteriores, quando a taxa havia subido 0,75 ponto percentual. “Considerando o processo de redução de riscos do cenário inflacionário que se configura desde a última reunião do Copom, e que se deve à evolução recente de fatores domésticos e externos, o comitê entende que a decisão irá contribuir para intensificar esse processo”, informou o BC em nota.
A taxa básica começou a subir em abril. Na época, estava em 8,75% ao ano, menor percentual da história recente. Desde então, houve dois aumentos que trouxeram os juros de volta ao patamar de dois dígitos. Até a semana passada, o mercado financeiro mantinha a expectativa de que o BC anunciaria um novo aumento de 0,75 ponto na Selic. As apostas começaram a mudar na quinta-feira passada, quando o presidente do BC, Henrique Meirelles, afirmou em uma entrevista não programada que a decisão do Copom não estava fechada. A afirmação foi interpretada pelo mercado financeiro como uma sinalização de que o BC poderia reduzir o ritmo de alta dos juros.
Quando o BC iniciou esse novo ciclo de aperto monetário, a economia crescia a uma taxa próxima de 10% ao ano, e a inflação projetada beirava os 6%, taxas consideradas insustentáveis pelos economistas. Desde maio, no entanto, novos indicadores mostraram desaceleração da atividade econômica e dos principais índices de preços. Com isso, aumentou a pressão dentro do próprio governo para que o BC abandonasse a política de aumento dos juros ou, pelo menos, reduzisse o ritmo de alta.
O aumento da Selic ainda é parte da política do governo para retirar os estímulos ao crescimento econômico anunciados durante a crise de 2008. Além de elevar os juros, o governo anunciou o fim de incentivos fiscais (como o IPI zero para carros) e a retirada de dinheiro da economia por meio do aumento nos depósitos compulsórios dos bancos.
A próxima reunião do Copom, que se reúne a cada 45 dias, está marcada para os dias 31 de agosto e 1 de setembro. Há ainda dois outros encontros até o fim do ano, no final de outubro e início de dezembro.
Empresários e trabalhadores criticam elevação
Mesmo que o Copom tenha decidido reduzir o ritmo de alta dos juros, a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) avalia que poderia ter havido uma freada nas elevações da taxa básica. “Esperávamos um pouco mais de ousadia do Banco Central. O cenário ainda é de bastante incerteza na economia internacional. No mercado interno, a produção, o consumo e a inflação no segundo trimestre apresentaram desaceleração. O Copom já errou na dose do remédio em outras ocasiões e não há por que penalizar o setor produtivo, o consumidor e a geração de empregos”, lamentou o presidente da instituição, Paulo Tigre.
Para a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomécio-SP), a decisão demonstra um medo exagerado da autoridade monetária na possibilidade de aumento da inflação, mesmo com sinais de arrefecimento da economia brasileira nos últimos meses. Para o diretor-executivo da entidade, Antonio Carlos Borges, o reajuste é “absolutamente desnecessário”. “O momento pede uma parada técnica para que o BC análise melhor a situação a partir dos aumentos dos juros básicos nos meses anteriores e possa tomar a decisão mais acertada daqui para a frente.”
A Fecomércio ressalta que alterações na Selic costumam levar de quatro a oito meses para surtirem efeito na economia real. “O processo de aperto monetário iniciado em abril ainda nem gerou resultados expressivos na economia real, embora tenha provocado efeito psicológico muito forte no consumidor, que passou a demandar menos produtos.”
Já a central sindical União Geral dos Trabalhadores (UGT) lamenta que o Copom tenha perdido a oportunidade de tirar do Brasil o título de recordista mundial de juros altos. O aumento da taxa Selic já foi adotado em outros governos, trazendo como consequência a recessão da nossa economia.
Fonte: Jornal do Comércio
